04.10.07
Recordações de um curto espaço tempo
Ainda lembro daquele saudoso lugar. Também pudera, como poderia me esquecer? Grande parte da minha infância e adolescência passei ali. Quando ouvia os mais velhos falarem: “essa é a melhor fase da vida”, não dava muita conversa. Agora entendo porque eles vinham com esse discurso.
Naquele tempo, o compromisso era quase nulo. Tínhamos tempo para brincar, jogar conversa fora, sair todos os dias e nos divertir. Mesmo assim, tinham os que reclamavam sempre, queixando-se da escola, dos deveres e das matérias, argumentando que tudo o que nós estamos aprendendo não teria nenhuma finalidade para as nossas vidas, principalmente matemática. Admito, também rogava pragas contra essa ciência até então inútil.
Claro que existiam os que adoravam ir à escola, escutar o que ao professores diziam e assimilar ao máximo aquilo que estavam passando para obter conhecimento, mesmo que limitado, naquele tempo. Não, isso não! Encaixávamos mais no “seleto” grupo de jovens que somente iam pra escola. Aprender que é bom? Não, não tínhamos paciência.
Quase sempre matávamos aula, ora pra jogar bola com as outras turmas, ora pra pular o muro do colégio e ir até o calçadão, para matar o tempo em algum banco vazio da praça, como os vagabundos que lá estavam. Sentíamos inveja daqueles seres ali postados, sempre discutindo assuntos banais, corriqueiros mesmo, como se aquilo a coisa mais importante de todas: sempre na correria, tentando passar alguém pra trás, conseguir dinheiro fácil e levar todos na lábia. A inveja não era pelo estilo de vida optado por eles, mas justamente pela simplicidade e a felicidade daqueles homens. Víamos isso como uma vitória, um exemplo de conquista. Nada é tão complicado como a escola nos passava.
O tempo foi passando e as coisas pioraram. O que antes eram esporádicas fugas, agora se tornava uma atitude normal. Até que grande parte do grupo foi desistindo. Um começou a trabalhar e não tinha mais tempo para o estudo. Outro foi expulso por colocar uma bomba no banheiro. E alguns simplesmente sumiram, sem deixar nenhum vestígio.
Admito que a vontade que sentia era a mesma dos meus colegas. Não suportava mais ouvir tanta besteira, tanta inutilidade junta. Quando meu pai me questionava: O que tu queres ser da vida, guri? Eu respondia: Vou ser músico, jogador de futebol, sei lá! Tenho muito tempo pra pensar. O mais engraçado é que o tempo parece ser eterno nessa fase da vida e que se não fosse por ele, o pai, teria desistido também.
Depois de muita insistência, até por parte dos professores, que tentavam me estimular, tomei jeito. Pena que a ficha caiu somente no último ano. E como todos sabem, correr atrás do prejuízo, nessa altura do campeonato, é complicado. Rever em um ano tudo o que foi mostrado nos dois passados parecia uma tarefa impossível.
Hoje, o orgulho e a satisfação não cabem em mim. Prestes a conseguir o meu primeiro emprego, agradeço infinitamente meu pai, mãe e os professores que me convenceram que não desistir.
Daquela turma, ainda converso com alguns. Não faz muito tempo, quando saia da porta de uma banco, trombei com Felipe, uma dos cúmplices dos tempos áureos. Lembramo-nos das várias aventuras que convivemos. Mas o semblante dele era do da época, parecia abatido, cansado e desanimado. Percebendo isso, logo questionei o motivo. E ele, com um tom de voz ameno, desabafou estar arrependido por não ter terminado o segundo grau. Ele estava entrando na agência bancária para receber sua última parcela do seguro desemprego. Até aquele momento, não tinha conseguido nenhum ganha-pão, tudo por “culpa” do maldito segundo grau.
Triste, a percepção que tive é que aqueles antigos ídolos vagabundos que venerávamos não eram o exemplo que pensávamos que fosse. Os valores mudaram com o tempo, o tempo que tínhamos, quando mais jovens, não nos sobra mais. Agora entendo porque aqueles senhores falavam da melhor fase da vida. Pelo mesmo motivo que aconselho as crianças e adolescentes com que converso. Mesmo assim, não adianta falar, sei porque já passei por essa fase.
Mesmo com todo o ritmo agitado do cotidiano, ainda hoje, quando passo pela frente da minha antiga escola, paro e lembro nostalgicamente da melhor época da minha existência.

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